Semana passada, durante palestra no Clube Militar de Belo Horizonte, o general Marco Antônio Felício da Silva afirmou que o Partido dos Trabalhadores prepara um golpe para derrubar Dilma e sua base aliada do poder. Delírio ou artimanha?
Falando a uma plateia atenta e assustada, o oficial da reserva aventou a possibilidade do golpe ser deflagrado ainda no início de abril, durante o Foro de São Paulo.
"Todo o movimento comunista do qual faz parte o Foro ―o PT e outros ― tem como finalidade a obtenção do governo comunista", garantiu o oficial. "Há toda uma técnica, toda uma estratégia e o objetivo final é mesmo a instalação de uma ditadura do proletariado".
Marco Antônio informou a seus atentos ouvintes que por todo o país estão sendo infiltradas ideias revolucionárias e mensagens subliminares sobre o comunismo. E, embora imperceptíveis à maioria das pessoas, estas ideias farão muito sentido quando o golpe for concluído.
"Além da propaganda em emissoras de TV e programas sociais― o Bolsa Família é uma delas ― também estão sendo influenciados formadores de opinião, como professores e jornalistas", disse o oficial que, quando na ativa, ostentava quatro estrelas em seu jaquetão. “A mídia é quase toda controlada pelos esquerdistas”.
Outra questão duramente criticada pelo general foi a instalação da Comissão da Verdade. Uma investigação vista como revanchista por ele e grande parte dos integrantes do alto escalão das nossas Forças Armadas.
Mas qual o sentido em afirmar que o PT quer derrubar Dilma para instalar no país uma espécie de República Petista-bolchevique?
A preparação duma virada de mesa à direita, óbvio. Pois este é um script bastante manjado.
Em 1964, a denúncia de que o presidente João Goulart planejava um golpe para implantar no Brasil uma República Sindicalista aos moldes da República Justicialista Argentinafoi uma das justificativas para sua deposição.
Portanto, longe de ser delírio dum general de pijamas, o alerta dado em Belo Horizonte está dentro dum contexto maior que visa sondar o terreno para a possível intervenção militar.
Movimento este que será inevitável caso a direita, principalmente a que calça coturnos e empunha baionetas, se sinta acuada diante do avanço dos trabalhos da Comissão da Verdade ou das ações dos movimentos sociais, das recentes invasões indígenas e dos protestos dos estudantes nos grandes centros urbanos.
Aí está a lógica da pregação de Marco Antônio no Clube Militar.
Só quando um general desse gritar - Pega pra capar! é que vamos mensurar o tamanho do estrago ideológico que este tipo de discurso faz na tropa.
Afinal, se os duzentos mil homens das nossas Forças Armadas resolverem sair ás ruas com seus tanques e fuzis, quem vai conseguir impedir a deposição da presidenta?
E o passo seguinte será mais uma ditadura militar com a consequente caça a petistas e seus congêneres.
Por mais que os historiadores de plantão me garantam que as condições históricas são outras, tenho medo de que aquele 31 de março de 1964 esteja prestes a se repetir. E não como farsa, como convém à tese do velho e bom Marx, mas através de mais uma sangrenta tragédia.
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Veja um pouco da pregação do general Marco Antônio acessando este link.
Um dos raríssimos brasileiros condenados a
pena de morte no Brasil desde a proclamação da república,Ariston Lucena morreu sábado no anonimato perante a grande imprensa e os livros de História.
Tremenda
injustiça.
Ariston se envolveu na luta contra a ditadura militar ainda menor de idade. Companheiro de guerrilha do lendário Capitão Carlos Lamarca, aos 19 anos ele escapou, com mais seis combatentes, dum cerco de 5 mil soldados montado no Vale do Ribeira, em São Paulo, que durou quarenta dias.
No pé deste post detalhes sobre a façanha que abalou a moral dos milicos à época.
Preso e torturado barbaramente pela equipe do Coronel Erasmo Dias, Ariston acabou condenado a morte, pena comutada depois a prisão perpétua. Ele cumpriu dez anos de reclusão até ser solto por força da anistia.
Ariston Oliveira Lucena era filho de uma família de guerreiros. Seus pais - Raimundo Lucena e Damaris Lucena - foram militantes da
Vanguarda Popular Revolucionária.
Embora analfabeto, Raimundo era conhecido como
Doutor por sua inteligência e
perspicácia. Foi assassinado em 1970, na cidade de Atibaia, com um
tiro na cabeça na frente da mulher e de três filhos.
A
mãe, Damaris, foi presa e torturada. Saiu da cadeia na troca pelo cônsul japonês. Morou em Cuba por vários anos e mantém até hoje um fé inabalável no
socialismo.
Ariston morreu
do coração aos 62 anos.
Muito provavelmente, quando a poeira dos Anos
de Chumbo assentar e nossos heróis de
verdade forem reconhecido pelo povo, Ariston virará nome de rua, estátua numa praça, ou feriado. Hoje, porém, poucos brasileiros sabem quem ele foi ou conhecem os detalhes deste que foi o período mais conturbado da nossa história.
De pé, a partir da esquerda Ariston Oliveira Lucena, Gilberto
Luciano Belloque, Paulo Vanucchi, José Genoíno Neto e Manoel Cyrillo. Sentados: Ozeas Duarte, Aton Fon Filho, Reinaldo Morano Filho, Celso Antunes Orta e Hamilton
Pereira
Saiba tudo o que aconteceu durante a ditadura militar numa narrativa ágil e vibrante. Leia Pedro e os Lobos –
Os Anos de Chumbo na trajetória de um guerrilheiro urbano.
www.osanosdechumbo.blogspot.com.br ABAIXO, DOIS DOS CAPÍTULOS DO LIVRO QUE NARRAM O CERCO NO VALE DO RIBEIRA .................................................................
Fogo cruzado
Era uma noite
muito escura. Dia oito de maio (a lua nova começou no dia cinco).
Aproximadamente
às 21 horas. O combate foi breve, mas feroz. Intenso tiroteio de três minutos.
Dezesseis inimigos renderam-se. Um fugiu.
Carlos
Lamarcaem,
Lamarca, O Capitão da Guerrilha.
Faltando sete quilômetros para
chegar à Sete Barras surge, em direção contrária, uma caminhonete C-14 da PM e
um caminhão de transporte de tropas.
O
tiroteio na escuridão será rápido. E, mais uma vez, a superioridade em armamento
e treinamento dos guerrilheiros faz a diferença. Em três minutos de combate
quase todo o destacamento – composto de um tenente, dois sargentos, dois cabos
e onze soldados – estão mortos, feridos ou dominados. Só um dos militares
consegue fugir para o mato.
Informado
de que há uma barreira policial montada a frente, Carlos Lamarca propõe um
acordo com Alberto Mendes Júnior, comandante dos PMs. Ele irá até o bloqueio
providenciar a desobstrução da estrada em troca da libertação de seus subordinados.
Quando
o oficial volta com a garantia de que o caminho está livre, o Capitão cumpre o prometido e libera
todos os policiais. O grupo da VPR segue agora com a C-14 levando apenas
Alberto como garantia de que o acordo fora cumprido.
Com a chuva intensa, a estrada
de terra batida vai ficando intransitável e a perua atola logo à frente. Sem
alternativa, eles são obrigados a continuar o trajeto a pé.
Já bem
próximo da cidade de Sete Barras, ruídos saindo da vegetação de um dos lados da
estrada denunciam a presença de soldados de tocaia. Rapidamente, os homens da
VPR fogem pelo capinzal existente do lado oposto da pista levando o oficial com
eles.
Desviando
da luz dos holofotes que vasculha o mato a partir da rodovia, os companheiros
de Pedro tratam de fugir abrindo caminho entre as densas touceiras de capim.
José Nóbrega, seguindo a frente
no escuro, acaba rolando no barranco que margeia a estrada e se vê obrigado a
ficar imóvel no lamaçal para não ser localizado pelos soldados. Edmauro, ainda
zonzo pelo ferimento na cabeça, fica muito para trás e também se perde do
grupo.
Carlos
Lamarca e seus companheiros ainda estão tentando encontrar os dois extraviados
quando acontece uma grande lambança na estrada.
Acreditando estar diante do
caminhão com os guerrilheiros, um pelotão do Exército que chega a Sete Barras
abre fogo contra um comando da PM que vem em direção contrária. No revide,
começa o intenso tiroteio que vai deixar feridos um tenente-coronel e um
soldado.
O
matraquear das metralhadoras leva Carlos Lamarca e seus companheiros a
acreditar que José Nóbrega e Edmauro foram encurralados e estão sendo mortos. O
Capitão então parte com o grupo e seu
refém para longe dali.
Entretanto, os dois
companheiros de Pedro Lobo na VPR continuarão vagando pela região e só serão presos
dias depois ao tentarem fazer contato com moradores para obter comida.
Tenente condenado
Foi julgado e
condenado por ser um repressor consciente, que odiava a classe operária
– por ter
conduzido à luta seus subordinados que não tinham consciência do que faziam,
iludidos em seus idealismos de jovens, utilizados como instrumento de opressão
contra o seu próprio povo, iludindo os jovens, ensinando-os a amar a farda,
quando deveriam amar o povo – por ter rompido com a palavra empenhada em
presença de seus subordinados – por ter tentado denunciar a nossa posição. A
sentença de morte de um Tribunal Revolucionário deve ser cumprida por
fuzilamento. No entanto, nos encontrávamos próximo ao inimigo, dentro de um
cerco que pode ser executado em virtude
da existência de muitas estradas na região. O tenente Mendes foi condenado a
morrer à coronhadas de fuzil, e assim o foi, sendo depois enterrado.
Comunicado
da VPR sobre a morte a coronhadas do tenente Mendes Júnior.
O entrevero em Sete Barras denunciará às Forças Armadas que Carlos Lamarca e seus
companheiros continuam no Vale do Ribeira. Rapidamente, Exército, Aeronáutica e
Marinha devolvem todo o contingente desmobilizado à região. Começa aqui a
segunda fase da Operação Registro.
Sem
dormir, o Capitão e seu grupo marcham
por dois dias pela mata em busca de uma brecha que lhe permita furar o cerco.
10 de maio. A essa altura,
Alberto Mendes Júnior se tornara um grande estorvo, uma vez que, mesmo estando
sob a permanente mira de uma arma, ele pode resolver dar um grito de alerta a
qualquer momento e as tropas estão por toda parte. Se for solto, fatalmente o
PM vai indicar a exata localização do grupo.
O tenente já havia tentado,
inclusive, se aproveitar de um descuido de Gilberto Faria Lima para tentar
apanhar sua metralhadora. Só não conseguiu porque Ariston percebeu a manobra e o
imobilizou a tempo.
Num
julgamento improvisado, Alberto será condenado à pena capital por não ter
cumprido sua parte no trato na estrada de Sete Barras. Executado a coronhadas
de fuzil, ele será enterrado em uma cova rasa no meio da mata.
Os guerrilheiros ainda caminham
mais 24 horas até descobrir que caíram num cerco tático. Sem saídas, eles resolvem
então acampar embaixo de uma grande pedra no alto de um morro. E ficam ali por
dez dias.
Enquanto os fugitivos observam
de seu esconderijo o movimento da
repressão a sua volta, fuzileiros navais vasculham os afluentes do Ribeira,
soldados do Exército esquadrinham caminhos e trilhas, empórios e sedes de
fazendas são revistadas e aviões da FAB bombardeiam todas as clareiras visíveis
nas encostas de Serra do Mar.
Nos alto-falantes instalados nas
viaturas que passam lá embaixo na estrada, os companheiros de Pedro ouvem:
Elementos da VPR,
apresentem-se na estrada principal com uma bandeira branca.
Venham reunir-se
aos companheiros da base Zanirato e Eremias.
queremos evitar
derramamento de sangue. Não prolonguem o inevitável.
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“A tortura a presos políticos no Brasil começa já em 1964,
logo após o golpe.”
Esta notícia teve grande destaque ontem no Jornal Nacional e no
Jornal da Globo. A emissora usou dados
da Comissão da Verdade que precisou de um ano de intenso trabalho para fazer a "bombástica" revelação.
Caspite!
Se os membros da CV ou os jornalistas da Globo tivessem lido Pedro e os Lobos, Os Anos de Chumbo na trajetória
de um guerrilheiro urbano já teriam esta informação desde dezembro de 2009, quando o livro foi lançado.
Assim, pelo andar da carruagem, esse pessoal vai precisar de mais um ano para anunciar, no mesmo tom bombástico, que também houve uma série de mortes nos meses seguintes a tomada do poder pela milicada. Desprezar a pesquisa séria e demorada dos historiadores que se debruçaram sobre o assunto nestes últimos trinta anos parece ser a tônica da Comissão. Eu mesmo, que passei sete anos escarafunchando arquivos, fazendo entrevistas e lendo jornais da época, sequer serei ouvido. Aliás, me ofereci para colaborar de graça ao pessoal da Comissão nacional e da estadual aqui de São Paulo e fui sumariamente descartado. Portanto, se você quer conhecer, com um ano de antecedência, a maioria das revelações que a Comissão deverá fazer no final de 2014, mais outras que nem deverão ser aferidas por ela, leia Pedro e os Lobos. Em suas 640 páginas estão, em detalhes, os antecedentes do golpe, o AI-5 e o “Milagre Brasileiro”. Tem também as guerrilhas de Três Passos, desconhecida pela maioria dos brasileiros, de Caparaó e Araguaia. No livro você vê ainda todas as ações armadas, atentados, sequestros e assaltos a banco e trens pagadores; as prisões, tortura e morte de presos políticos e o mistério sobre o desaparecimento de Onofre Pinto. Fora tudo isso, mo livro você encontrará episódios que a Comissão da Verdade nunca vai abordar, como as ações da esquerda que viraram roubadas e a mina de ouro de Lamarca perdida no Vale do Ribeira. Fechando esse completo painel dos Anos de Chumbo, em Pedro e os Lobos você lê ainda a luta pela anistia, as greves do ABC e as Diretas Já Tudo isso mais a louca vida de Pedro Lobo de Oliveira.
Abaixo, vão alguns trechos que
descrevem o que o público da Globo só ficou sabendo ontem.
E é importante ressaltar que essa constatação desmonta o argumento de que a violência contra os
opositores do regime só começou em 1968 como forma de reação às ações armadas da esquerda.
Começa a
crueldade
Gregório, vestindo apenas um calção preto,
com a cabeça fraturada sangrando, banhado de suor, com os pés que haviam sido
introduzidos em soda cáustica e os pulsos feridos pelas algemas também
sangravam. Com uma corda de três pontas amarrada no pescoço era arrastado por
um grupo de verdes soldados, seguido por um carro de combate. O tenente-coronel
Darcy Vilocq enlouquecido agitava uma vareta de ferro e pronunciava palavras
carregadas de ódio, um ódio urgente, quem sabe com medo que o tempo acabasse e
a história se invertesse. Injuriava um homem de setenta anos, um velho
militante comunista, seu prisioneiro, acrescentando a tortura física, a
agressão psicológica, na verdade ultrajando o povo e o exército brasileiro.
Diante do golpe, o líder
camponês Gregório Lourenço Bezerra ainda tenta armar um foco de resistência em
Pernambuco reunindo voluntários nas terras da Usina Pedrosa, próximo a cidade
de Cortês. Preso no dia 2, ele será transferido ao Recife
para ser humilhado em praça pública.
Amarrado pelo pescoço e algemado, o
veterano comunista, de 64 anos, vai ser espancado nas ruas da capital numa
espécie de aperitivo da violência que os opositores do regime vão experimentar daqui
para frente. Aos berros,
o tenente-coronel Darcy Vilocq, que comanda o macabro desfile, anuncia:
Gregório Bezerra vai ser enforcado na Praça
de Casa Forte. Venham ver!"
O prisioneiro só não morre ali
porque o coronel Hélio Ibiapina lembra o colega de farda que ele não pode ser
morto porque ainda não fora interrogado.
Epidemia suicida
Das treze mortes
relacionadas no Dossiê Dos Mortos e Desaparecidos em 64, oito referem-se a
suicídio.
Do livro, Dos Filhos Deste Solo.
A violência política instalada no Brasil a partir do golpe vai
encontrar campo fértil nas salas de interrogatório onde as informações exigidas
dos inimigos da pátria serão arrancadas
a ferro e fogo. Um excesso aqui, outro ali, e os suicídios vão servir de
justificativa quando a truculência provoca algum acidente de trabalho.
8 de
abril. Preso na Guanabara, Antogildo Paschoal Viana – o tesoureiro da Federação
Nacional dos Estivadores e dirigente do PCB teria se atirado do 5º andar do
Hospital Iapetec da Avenida Brasil. No mesmo dia, o 2º sargento do Exército
Bernardino Saraiva teria se dado um tiro na cabeça. Isso, depois de ferir
quatro dos militares que tentam prendê-lo na cidade gaúcha de São Leopoldo.
Outro
que, pela versão oficial, resolve se suicidar em abril é o militante do PCB e
funcionário do Departamento de Correios e Telégrafos da Bahia, Pedro Domiense
Oliveira. No dia 9, ele teria ingerindo substância tóxica numa sela do Quartel
General da 6ª Região Militar de Salvador, onde está incomunicável. Neste caso,
fica difícil entender como um preso isolado em uma cela forte consegue veneno
para se matar.
17 de
abril. Conforme a polícia política carioca, às 5 da tarde o mecânico e membro
do Sindicato dos Ferroviários da Leopoldina, José de Souza – que está preso há
nove dias para averiguações – se atira da janela do 3° andar do prédio da
Polícia Central, sede do Serviço de Atividades Antidemocráticas do Dops.
As mortes estranhas de comunistas
e sindicalistas entram pelo mês de maio. Ainda no dia 1º, na cidade mineira de
Divinópolis, o militante do PCB Carlos Schirmer – de 68 anos – é baleado ao
ser preso em sua casa. Levado a um hospital de Belo Horizonte, ele morre cinco
dias depois. Para variar, na versão oficial consta como causa mortis o suicídio.
No caso de outro preso – Manuel Alves de Oliveira – a repressão sequer se preocupa
em montar uma versão que encubra o assassinato. Preso no Regimento Andrade
Neves para responder um inquérito militar, o 2º sargento vai ser removido ao
Hospital Geral do Exército onde morre no dia 8, sem que sejam determinadas,
oficialmente, as circunstâncias do de seu óbito.
Fora essa epidemia suicida, os dois primeiros meses da Revolução Redentora dos militares vai terminar com mais de três mil
cidadãos superlotando as celas destinadas aos presos políticos.
Mais suicídios
(...) houve comunicação que às 9:20 horas, um
homem havia se atirado pela janela do 4° andar do Ministério da Justiça, caindo
no pátio interno, morrendo imediatamente. Tratava-se de Dilermano Mello do
Nascimento que, desde o dia 12 último, vinha, na sala n° 05, do Serviço de
Administração do dito Ministério, prestando declarações em inquéritos
administrativo-policiais(...). Hoje, quando aguardava prosseguimento do
inquérito, Dilermano trancou-se na dita sala, cuja maçaneta apresentava defeito
e, em seguida, projetou-se por uma janela. Com o morto, dentre outros
pertences, havia um bilhete em que se lê:
‘15/08/64. Basta de tortura mental e desmoralização’, com assinatura
ilegível.
Registro
de Ocorrência n° 2046 da 3ª Delegacia de Polícia.
No segundo semestre de 64, mais
dois presos políticos vão morrer depois de serem presos pela polícia. Nas
causas registradas nos atestados de óbito: suicídio.
15 de agosto. Oficialmente o 1º
tenente do Exército e veterano da Segunda Guerra, Dilermano Mello do
Nascimento, de 44 anos, pula pela janela do 4º andar do prédio do Ministério da
Justiça no intervalo do interrogatório a que está sendo submetido. O ex-pracinha
ainda teria deixado um bilhete dizendo-se cansado da tortura mental e da
desmoralização por estar preso.
No dia
1º de setembro. O corpo do ex-presidente da Federação Nacional dos
Trabalhadores nas Indústrias Gráficas e militante do Partidão, Newton Eduardo
de Oliveira, dá entrada no IML do Rio. A causa da morte no laudo necrológico:
suicídio.
Mais dois opositores do regime simplesmente sumirãonas mãos dos militares em setembro. Presos logo depois do golpe, o
sapateiro e ex-vereador, João Alfredo Dias e o
lavrador Pedro Inácio de Araújo – membros das Ligas Camponesas de Sapé – na
Paraíba – são levados ao 15º Regimento de Infantaria de Aracaju.
Os militantes do PCB são torturados até
setembro quando desaparecem do quartel do Exército. Tempos depois, dois corpos
carbonizados são encontrados na estrada que liga João Pessoa a Caruaru. Testemunhas
afirmam serem de João Alfredo e Pedro Inácio aqueles cadáveres.
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domingo, 28 de abril de 2013
OS MILICOS RESOLVERAM ME INTIMIDAR
Coronel Antônio Paiva Rodrigues
Depois de me xingar dessa forma, quais serão as providências do pessoal do Guararapes
em ralação a mim e a meu livro?
Se você pensa que os militares estão conformados com a redemocratização do Brasil, com a instalação da Comissão da Verdade ou em ter uma ex-guerrilheira sentada na cadeira de presidente, leia o e-mail que recebi esta semana de um oficial.
Só a acusação de
terrorista contida no texto já me iguala, em periculosidade e desvio de conduta, aos irmãos que atacaram a Maratona de Boston ou, até mesmo, ao próprio Bim Laden, com perdão
da imodesta comparação.
O fato de dizer que tenho cara de
diabo ou sou comunista frustrado não mexe muito com meu ego, já que acho o demo até charmoso e nunca fui um "comunista" propriamente dito.
Agora, a gravidade do fato é que o referido e-mail não é uma simples ameaça anônima, dessas que viraram febre na internet. A
intimidação tem nome, sobrenome, patente militar graduada e endereço eletrônico.
E o que deixou o coronel Antônio Paiva Rodrigues tão irado? Ora, uma singela propaganda do livro Pedro
e os Lobos - Os Anos de Chumbo na trajetória de um guerrilheiro urbano enviada a sua caixa-postal.
O milico simplesmente não gostou de saber que meu trabalho discorre sobre as mazelas praticadas pelos seus pares durante o regime
militar e, de quebra, trata os Anos de Chumbo a partir da ótica da guerrilha.
Ele também deve ter torcido o nariz para o tratamento de herói que dei ao ex-sargento Pedro Lobo de Oliveira e a todos os seus companheiros de luta que atazanaram o governo de coturnos naqueles distantes anos 1960 e 1970. Na visão de Antônio Paiva, Pedro e os Lobos é um livro nefasto que confunde a mente dos brasileiros.
O perigo maior, entretanto, é a
questão não ter parado no gabinete do referido coronel. Ele encaminhou "meu
caso" a um oficial mais graduado ― o general
de divisão reformado Francisco Batista Torres de Melo, coordenador dum grupo chamado
Guararapes ― para a devida tomada de providências.
E,
vindas de um general de divisão das antigas, que chefia uma entidade de ultra-direita cujo lema é ― Estamos Vivos!, já imagino quais serão as providências cabíveis.
Portanto, caros perseguidores, se esta for minha última aparição aqui neste espaço ou em qualquer outro espaço existente sobre a face da Terra, se conformem.
A propósito, o coronel em seu e-mail garante que
estamos perto de um débâcle.O grifo
em amarelo no e-mail, inclusive, é dele. Alguém saberia me explicar o que ele quis
dizer com isso?
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