terça-feira, 10 de agosto de 2010

Os "donos" da História


       Durante a construção do livro Pedro e os Lobos, me deparei com a existência de alguns "donos" da História.
       Exercendo um violento patrulhamento em nome da verdade revolucionária, um destes ex-militantes da luta armada chegou a me proibir, aos berros, de publicar o capítulo onde, em 1972, Pedro é convidado por um guerrilheiro brasileiro exilado no Chile a trabalhar para a máfia.
       O argumento comum a estes patrulheiros é o de que:
       - Éramos todos heróis e você está maculando a reputação de um dos nossos.
       Mas o Pedro me contou o episódio, argumentei. Ele aconteceu e o próprio irmão do cara me autorizou a divulgá-lo, inclusive citando o nome do rapaz que fez o convite.
       - Você está louco! Não vê que a direita está só esperando uma deixa dessa pra destruir a reputação da gente.
       Primeiro, a direita já se dedica, 24 horas por dia, a detonar a imagem daqueles que pegaram em armas durante a ditadura. Vide sites como o Ternuma e seus congêneres.
       Eu mesmo fui considerado ingênuo pelos milicos de pijama. No site Vasculhando o Orvil eles dizem que Pedro me convenceu que os lobos do título eram os militares, mas que, na verdade, o lobo era ele, que roubou, atentou e matou em nome do comunismo internacional.
       O patrulhamento de alguns destes ex-combatentes chegou ao absurdo de eles me pediram pra retirar do texto vários termos que consideram ofensivos à causa.
       - Roubo não pode! Tem que falar expropriação. Sequestro também não, é pejorativo. 
       O interessante é que no manifesto escrito pelos próprios guerrilheiros durante o confinamento de Charles Elbrick, em 1969, e, por exigência deles, divulgado em todas as TVs e rádios do país, diz:
       Ele (o sequestro) se soma aos inúmeros atos revolucionários já levados a cabo: assaltos a bancos (...). Na verdade, o rapto do embaixador é apenas mais um ato (...)
        Agora, quarenta e tantos anos depois, esse pessoal quer tirar da História episódios reais e sublimar termos que a esquerda cansou de usar em seus manifestos.
        É querer ser mais realista que o rei, né não?

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